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Biodigestor Sertanejo possibilita cuidado com o meio ambiente e garante economia para famílias do Semiárido

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Um dos caminhos para termos um planeta mais saudável e minimizar os efeitos das mudanças climáticas é buscar opções renováveis e que não sejam geradoras de impactos ambientais. Nesse sentido, para atender a uma das necessidades básicas do ser humano, que é o preparo de alimentos, já existe alternativa capaz de prover a autonomia das famílias de comunidades rurais do Semiárido. É o chamado Biodigestor Sertanejo, uma tecnologia social sustentável que permite deixar de lado o consumo do Gás Liquefeito de Petróleo (GLP), também conhecido como “gás de cozinha”, que geralmente é comercializado em botijões.

A família de Dona Ana Lúcia Moura e Anselmo Cordeiro, que reside na área do Centro de Formação Dom José Rodrigues, do Irpaa, localizado no Jardim Primavera, em Juazeiro, já está há quase dez meses sem comprar gás GLP. Anselmo destaca que desde outubro de 2022, as práticas de manejo e a utilização do Biodigestor Sertanejo tem sido uma oportunidade de muito aprendizado e que “[…] mudou bastante coisa na nossa vida, porque é um ciclo, você utiliza o esterco de caprino, produz o gás, o biofertilizante, o composto. Pra nós foi muito bom! E tudo gira em torno da nossa unidade produtiva!”.

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A agricultora familiar Ana Lúcia enfatiza a versatilidade de poder ajustar a produção do gás, de acordo com o consumo da família, que tem 5 pessoas. “É o suficiente pra eu cozinhar e até quando vem outras pessoas para minha casa, também consigo cozinhar com ele. Tá sendo uma maravilha! Espero que as próximas famílias também, que adquirirem o biodigestor, tenham as mesmas possibilidades que a gente tem, tanto em relação a não comprar mais o bujão, como também utilizar o (bio)fertilizante […]”, afirma.

Características do Biodigestor Sertanejo

Com inspirações em um modelo indiano, esse formato foi adaptado para atender à demanda de uma família, a um custo de construção acessível e de fácil manejo. Ele possibilita ainda a potencialização do esterco animal para além do adubo orgânico, ao proporcionar um produto de maior valor agregado, porque evita a comercialização do esterco a preços irrisórios. Com o manejo adequado da tecnologia, o/a usuário/a pode dispensar o uso de carvão, de lenha e o consumo de gás convencional.

Pela simplicidade, e por ser compatível com as características produtivas do Território Sertão do São Francisco e regiões adjacentes, atualmente esse tipo de biodigestor é considerado, por diversas entidades, o mais apropriado para as comunidades rurais do Semiárido brasileiro.

Em resumo, o tanque de fermentação tem as dimensões correspondentes a uma cisterna de 6 mil litros, sem tampa. Esse reservatório é construído e possui 1,8m de profundidade e 2,14m de diâmetro. O preenchimento é feito em partes iguais de esterco e água.

Na parte superior, como tampa, é utilizada uma caixa d’água plástica de 3 mil litros virada para baixo. É nesse espaço que o biogás fica armazenado, de onde é drenado para o sistema que abastece o fogão. Também fazem parte da tecnologia duas caixas, uma para fazer a recarga e outra para descarga de matéria orgânica, que é destinada para adubação.

No Biodigestor Sertanejo, devido às condições apropriadas da região semiárida, a preferência é pela utilização do esterco de pequenos rebanhos, como caprinos, ovinos e galinhas. Pode ser também com a mistura dos mesmos, entretanto, na experiência em questão, e nas demais que estão sendo implementadas, a opção tem sido pelo uso do esterco de caprinos.

O rebanho da família de Dona Ana tem uma média de 20 caprinos, quantidade mínima que é considerada, a partir da experimentação, suficiente para garantir o abastecimento do biodigestor e suprir as necessidades de uma família de até 5 pessoas. Mas, é importante se atentar para o manejo, porque essa capacidade de produção é adaptada conforme o uso, por isso, é preciso “[…] Descobrir qual a frequência e o volume de esterco a ser recarregado, conforme o volume de gás demandado pela família, de modo que não falte e também que não haja excesso. Se recarregar com o volume de esterco grande, que leve uma produção maior que o consumo, pode ter uma pressão maior do que o normal e até danificar as estruturas do biodigestor”, alerta o colaborador do Irpaa, André Rocha.

Pesquisa da eficiência e do manejo do Biodigestor Sertanejo com esterco caprino

Está em andamento uma pesquisa com esse modelo de biodigestor. As atividades iniciaram na unidade produtiva familiar de Ana e Anselmo e vão se estender para outros lugares. Para o estudo, estão sendo instalados na tecnologia equipamentos que vão permitir, por exemplo, a verificação de volume, temperatura e pressão do gás. Os aspectos relacionados ao esterco dos caprinos também serão monitorados.

André Rocha, que está coordenando a pesquisa, ressalta que o estudo é para “[…] conhecer melhor a eficiência do biodigestor nas condições de uso da nossa região […], faz bem analisar o volume de gás produzido e o respectivo volume de esterco utilizado, bem como o tipo de gás predominante, a ocorrência e volume de impurezas presentes […] ter uma análise do perfil do gás, se a predominância é metano, que é o que se prefere; se há uma quantia, além do esperado, de dióxido de carbono, que não é tão desejado na produção de biogás; verificar a incidência de ácido sulfídrico, que é corrosivo, é indesejado […] e utilizando o esterco caprino, qual é, de fato, o índice de metano; é o esperado, ou não? E de dióxido de carbono? E de ácido sulfídrico?[…]”.

O colaborador do Irpaa, pontua ainda que “[…] esses conhecimentos são importantes, tanto para aprimorar o manejo, visando preservar a vida útil dos equipamentos e também melhorar a eficiência do biodigestor, utilizando o esterco caprino […] A gente quer observar qual é o comportamento do biodigestor utilizando esse esterco que tem características específicas. E, somente os métodos laboratoriais são capazes de conferir”.

Um dos aspectos que tornam o uso do esterco de caprinos diferenciado de outros, é porque se ele estiver seco, é necessário fazer a trituração ou macerar, após a umidificação. Isso é importante para garantir a decomposição no biodigestor, já que os excrementos são no formato de bolinhas e podem ficar flutuando, o que comprometeria o processo.

André Rocha enfatiza que os resultados do estudo, além de um possível aprimoramento do biodigestor, devem potencializar o trabalho de difusão. “[…] Essas coisas que queremos observar, analisar; não como requisito para adoção da tecnologia, porque da forma que ela tá funcionando a gente já está satisfeito, mas a gente pode aprimorar o manejo e conhecer melhor, para que o trabalho educativo de promoção dessa técnica, dessa cultura, seja mais eficaz”.

Atualmente, o investimento para a construção desse modelo custa em média seis mil reais. As experimentações demonstram que ele produz o equivalente a um botijão de 13 kgs por mês, além de ter outros benefícios para a unidade produtiva familiar, conforme já destacaram Ana e Anselmo.

Uma orientação que precisa ser enfatizada sempre, para que não ocorram erros no uso da tecnologia, é que o Biodigestor Sertanejo é adequado para a escala familiar. Se a intenção é utilizar esse tipo, por exemplo, em uma unidade comunitária de beneficiamento, é preciso que seja construído mais de um, ou que se busque outros modelos de tecnologias que tenham as dimensões apropriadas.

O Irpaa construiu o exemplar que está sendo utilizado pela família de Dona Ana e Anselmo, em Juazeiro. A instituição presta ainda assessoria a outras famílias, que foram contempladas com a tecnologia por outras iniciativas, nos municípios Campo Formoso, Sento Sé e Remanso. Essas ações visam demonstrar a importância e eficácia do Biodigestor Sertanejo e, com isso, estimular a adoção da tecnologia em projetos executados pelo poder público ou pela sociedade civil.

Considerando os benefícios ambientais, sociais e econômicos, é importante pautar o debate e reivindicar que o Biodigestor Sertanejo seja incluído nas ações voltadas para a Convivência com o Semiárido, já que é uma “Tecnologia social de fácil apropriação e deve sim se transformar em política pública, para chegar a quem precisa e não tem a condição de comprar. Uma espécie de ‘Vale-Gás Sustentável’, por isso é importante que seja divulgado e reivindicado aos gestores públicos, para que possa ser inserido nos projetos”, defende André Rocha.

Texto e fotos: Eixo Educação e Comunicação do Irpaa

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