
Preencha os campos abaixo para submeter seu pedido de música:

À sombra de um pé de Juazeiro, com inspirações do ambiente natural, da Caatinga, foram realizadas uma mística com reflexões sobre “o que semeamos e o que colhemos” e discussões sobre a história da educação no país, as leis e diretrizes relacionadas à Educação do Campo e a importância da Educação Contextualizada.
Esse foi o panorama de apenas um dos dias de estudos do último agrupamento do segundo ciclo da formação continuada intitulada“Educação Contextualizada para Convivência com o Semiárido: Campo, Quilombo e Pertencimento”, realizada com educadoras/es, coordenadoras/es, gestoras/es e integrantes da equipe da Secretaria de Educação (Seduc) de Juazeiro.
Nesse segundo ciclo, a programação contou com diversos espaços formativos para aprofundar o debate sobre temas como a importância da atuação em rede de organizações e entidades; as políticas públicas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE); a regularização das Comunidades Tradicionais de Fundo de Pasto e Quilombolas; além da Lei de Diretrizes e Bases (LDB), a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e decretos relacionados à educação no país.
A partir de alguns relatos, o que vem sendo trabalhado ao longo dessa formação aos poucos já está sendo aplicado, aos poucos, por eles/as nas práticas de ensino, observando os pilares da contextualização. Foram citados, por exemplo, abordagens com a formação crítica dos/as estudantes, relacionadas às causas da degradação do rio Salitre e sobre as dificuldades de acesso à água. Aprofundando esse debate, a colaboradora do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa), Thaynara Oliveira, ressaltou a importância de “ampliar os olhares sobre a Educação Contextualizada”, que é preciso “olhar para além do muro da escola”.
Ainda ao longo das discussões nesse momento formativo, mediado por Thaynara, esteve em destaque a importância do cuidado no processo de revisão do Documento Curricular Referencial de Juazeiro (DCRJ) e da construção de propostas para Política Municipal das Escolas do Campo e Quilombolas. Entre as preocupações mencionadas pelos/as participantes estão a necessidade de utilizar uma linguagem acessível, sem termos muito rebuscados, e a de garantir, de fato, o compromisso e a participação em todas as etapas, até a aprovação da Política na Câmara de Vereadores.
“Que nasça um documento que a gente consiga fazer valer”, defendeu a professora Cíntia Vieira, que atua na Comunidade Marruá, distrito do Junco (Salitre).
Na avaliação de Eliete Leite, gestora de escolas também no distrito Junco, o que mais se destacou foram as discussões sobre o currículo, tendo em vista a necessidade urgente de dialogar com a realidade dos/as estudantes. “O currículo da zona rural precisa estar sendo adequado mesmo para a população da zona rural, a população de Fundo de Pasto, a população quilombola, os ribeirinhos; uma política diferenciada para atingir o nosso público. Nós precisamos que essa política que está sendo construída aqui com o olhar de pessoas que estão no campo, que estão nas suas comunidades, nas suas comunidades tradicionais, que esses saberes que são trazidos para cá possam se tornar política e que esse currículo possa ser voltado para um desenvolvimento. E que o que está se propondo aqui na questão de formação, na questão de estrutura e infraestrutura, de alimentação escolar, que possa ser adequada mesmo para a Educação Contextualizada na zona rural”.
Discutir a importância do fornecimento da alimentação escolar com produtos saudáveis e de origem local, provenientes da agricultura familiar, foi um dos destaques, apontados pelo gestor de escolas nos distritos de Juremal e Massaroca, Ivanildo Gomes:
“Geralmente a nossa merenda escolar vem de empresas que muitas vezes não tem nada a ver com a realidade de Juazeiro, quanto mais da região. Então, nossas crianças, elas vêm de uma região que são acostumadas a tomar aquele café tradicional com as coisas da terra. E esses produtos da gente não estão chegando à mesa do aluno. As nossas comunidades produzem, mas os nossos filhos, as nossas crianças, elas não têm esse direito. E com essa discussão, acreditamos que vai dar certo, a própria Secretaria de Educação vai passar a colocar o cardápio regional para essas crianças”.
A utilização de materiais didáticos contextualizados com o Semiárido também esteve entre os temas discutidos ao longo da formação. Algumas professoras e alguns professores reforçaram que isso merece uma atenção, ainda mais nos períodos em que as editoras chegam no município para “vender suas produções”. Mas é preciso questionar: “tem educação contextualizada? Do campo?”, enfatizou um dos participantes. Além da necessidade da criação de novos materiais, pode ser utilizado o que já existe e que só precisa ser adotado pelos municípios. Um exemplo disso é a publicação, em dois volumes, “Conhecendo o Semiárido”, elaborada pela Rede de Educação do Semiárido Brasileiro (RESAB), com conteúdos voltados para o 4º e 5º ano do ensino fundamental.
Todas as contribuições feitas pelas pessoas que estão participando dessa formação continuada vêm sendo registradas e estão contribuindo significativamente para a construção coletiva da “Política Municipal das Escolas do Campo e Quilombolas”. Nesse sentido, a atual diretora de Educação do Campo e Educação de Jovens e Adultos (EJA), da SEDUC – Juazeiro, Ana Paula Granja, avalia o segundo ciclo, concluído na última sexta-feira (7):
“O êxito deste segundo ciclo está justamente na capacidade de construir coletivamente, compreendendo que uma política pública ganha força quando nasce do diálogo com aqueles que vivem cotidianamente a realidade que ela pretende transformar. Foram encontros de aprendizagens, de inquietações, de partilhas e de descobertas. Foram momentos em que diferentes vozes se encontraram para pensar uma educação que faça sentido para quem vive no campo e nas comunidades quilombolas de Juazeiro. E é essa construção coletiva que nos fortalece”.
Alane Silva, colaboradora do Irpaa que coordena a formação, complementa que ao longo desse processo participativo, inclusive envolvendo lideranças comunitárias, estão sendo levantados aspectos específicos das comunidades, e que isso tem sido a “base principal para construção dessa Política”. Por isso, “é para além da vida dos professores e dos alunos, vai para a vida das comunidades, para garantir permanência e pertencimento dessas crianças e adolescentes”, ressalta.
Essa formação está envolvendo cerca de 240 profissionais que atuam na educação do município, nos distritos de Abóbora, Carnaíba, Itamotinga, Junco, Juremal, Maniçoba, Mandacaru, Massaroca e Pinhões. Em cada ciclo, os/as participantes estão sendo divididos em agrupamentos semanais de aproximadamente 60 pessoas. As atividades começaram em abril deste ano e estão acontecendo no Centro de Formação Dom José Rodrigues, localizado no Jardim Primavera.
O terceiro e último ciclo formativo iniciou nesta segunda-feira (10) e tem como proposta seguir aprofundando temas como o currículo da educação do campo e classes multisseriadas; além de proporcionar momentos para a apreciação da minuta da Política que está em construção.
Essa iniciativa é uma realização do Irpaa em parceria com a SEDUC do município de Juazeiro.
_
Texto: Eixo Educação e Comunicação do Irpaa | Fotos: Equipe Irpaa