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Após três ciclos de estudos foi concluída a formação: “Educação Contextualizada para Convivência com o Semiárido: Campo, Quilombo e Pertencimento”. Essa iniciativa contou com a participação de educadoras/es, coordenadoras/es, gestoras/es de escolas nos distritos de Abóbora, Carnaíba, Itamotinga, Junco, Juremal, Maniçoba, Mandacaru, Massaroca e Pinhões; além de integrantes da Secretaria de Educação (Seduc) de Juazeiro.
Realizada em parceria com a Seduc, a formação aconteceu em três ciclos de estudos desde o mês de abril e envolveu cerca de 240 profissionais da rede municipal de ensino. O terceiro e último ciclo foi finalizado na primeira semana deste mês de setembro com uma programação dedicada à abordagem de temas relacionados à organização curricular, projetos desenvolvidos com as escolas do campo, classes multisseriadas e atividades voltadas à apreciação e ajustes na minuta da “Política de Educação Contextualizada Antirracista do Campo e Quilombola no Município de Juazeiro-BA”.
Os momentos interativos para discutir e fazer ajustes tanto no Documento Curricular Referencial de Juazeiro (DCRJ) quanto na proposta da Política foram pontos de destaque enfatizados pelos/as participantes ao longo do terceiro ciclo. Inclusive, as atividades em grupo evidenciaram a necessidade de ajustes que apenas quem está vivenciando o dia a dia nas escolas do campo seria capaz de identificar com propriedade.
“Existem algumas lacunas que não atendem à nossa realidade. Então, esse momento para pensar de forma coletiva, dentro das nossas realidades, do nosso contexto, para atender às nossas necessidades e, principalmente, as necessidades dos alunos é de suma importância”, destaca a professora Helena Bezerra, que atua na Escola Durval Barbosa, da comunidade Poções, distrito Juremal.
A Professora Helena pontua ainda que já existem habilidades que constam na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e no DCRJ, “só que a gente vê que elas precisam ser realocadas. Por exemplo, tem habilidades que estão no 1º ano, na primeira unidade, que podem ser trabalhadas na 2ª, na 3ª; e encontramos uma habilidade que está lá no 3º bimestre do 2º ano que é de suma importância ser trabalhada no 1º bimestre”.
Um dos momentos formativos desse último ciclo que introduziu os trabalhos em grupos discutiu a importância da oralidade e da escrita na contextualização do ensino. Marília Carvalho, coordenadora pedagógica da Escola Antonila da França Cardoso, da comunidade Angico, avaliou essa atividade como fundamental para fazer apontamentos e aprimorar as práticas educativas e que elas sejam, de fato, significativas:
“Nós conhecemos a realidade dos nossos alunos e trabalhar a educação de maneira contextualizada eu acredito que seja o caminho correto para que eles se sintam representados, pertencentes de todo processo educativo que os compõem (…) Refletir sobre a linguagem e a escrita dentro do contexto da educação do campo hoje é muito importante, porque vai estar trabalhando o contexto dos nossos alunos, a realidade de vida deles. Que aprenda se reconhecendo, aprenda vendo que aquilo é importante para ele, que ele se reconheça em tudo que esteja alí escrito, seja nos documentos, seja na fala do professor em sala de aula, nas atividades atribuídas a ele, a partir dessas habilidades”.
Para dar seguimento na sistematização das contribuições feitas ao longo da formação e seguir acompanhando as próximas etapas, foi criada uma comissão com representantes de todos os agrupamentos e integrantes da Seduc, do Irpaa e lideranças comunitárias. Ainda esse ano estão previstas a realização de um seminário de culminância, a submissão da proposta da Política à Casa dos Conselhos e a convocação de uma audiência pública.
“Acredito que, nos próximos anos, a partir desse documento formulado e colocado em prática, a gente vai ter como resultado um desenvolvimento melhor, vai adequar a educação do campo à realidade (…) É um orgulho a gente poder estar participando desse momento histórico, a gente está construindo um documento que vai ficar aí por muitos anos, então, assim, é uma alegria muito grande, a gente fica muito satisfeito em poder participar”, ressalta o gestor de escolas no distrito Junco (Salitre), Robson Marreiro.
Os três ciclos formativos aconteceram no Centro de Formação Dom José Rodrigues, a “roça” do Irpaa, localizado no Jardim Primavera, em Juazeiro. O Irpaa também pautou ao longo de todo o processo de formação diversos temas relacionados à Educação Contextualizada e à Convivência com o Semiárido que são fundamentais para a compreensão desse lugar como uma região de muitas potencialidades e que ainda enfrenta desafios que exigem luta coletiva, participação cidadã e atuação em rede de entidades, com coletivos e movimentos sociais populares. Inclusive, esse entendimento do lugar onde vivemos, do Semiárido e da Caatinga, dos povos e tradições são a base para fazer acontecer uma educação significativa, conectada com a realidade e com sentimento de pertencimento das pessoas.
A coordenadora geral do Irpaa, Nívea Rocha, avalia essa iniciativa realizada em parceria com a prefeitura do município como fruto de um acúmulo de conhecimentos que a instituição tem e do trabalho de incidência realizado em rede com entidades, educadores/as e movimentos sociais populares que defendem a Educação Contextualizada para a Convivência com o Semiárido e a educação do e no campo.
“É uma experiência que estamos construindo coletivamente, com diversos sujeitos, seja com gestores, educadores; a partir da assessoria do Irpaa, mas com lideranças comunitárias, com a escuta social, com pesquisadores, universidades, redes que têm todo um acúmulo e que vem contribuindo para que, cada vez mais, a gente conquiste ou legitime o direito através da legislação, para que o direito seja garantido independente de governo, que seja uma política efetivada”.
Nívea complementa enfatizando que é fundamental esse avanço a partir de Políticas Municipais, com olhar dedicado de quem ocupa as gestões dos governos e com respeito ao modo de viver das comunidades tradicionais:
“A partir do momento que tem uma lei, que, se aprovada, se destina orçamento para ela, a gente consegue efetivar a política pública com mais qualidade. E a lei de educação contextualizada no campo, para o campo, priorizando as comunidades tradicionais seja ela do segmento quilombola, indígena, cigano, ou de qualquer natureza, compreendendo todas as peculiaridades da multissérie e da EJA (Educação de Jovens e Adultos), a gente tem um ganho político importante (…) Então, esse é o sentimento, de que essa construção é uma referência (…) Reafirmar que só com gestores sensíveis, comprometidos, a gente consegue garantir direitos e dignidade às populações que demandam, que carecem desse olhar para o seu modo de vida”.
O êxito da formação e o entusiasmo dos profissionais da educação em redesenhar o DCRJ mostram a maturidade pedagógica alcançada pela rede municipal de Juazeiro. Contudo, o próximo desafio, olhando para a proposta da Política Municipal das Escolas do Campo e Quilombolas, está na sua tramitação legislativa e na garantia de dotação orçamentária própria na Lei Orçamentária Anual. Pois para transformar preceitos de pertencimento e contextualização em direitos irrevogáveis se exige que o poder público supere a sensibilidade de discurso e assegure financiamento contínuo, impedindo que os avanços pactuados coletivamente fiquem à mercê de contingenciamentos ou de futuras alternâncias de gestão.
Texto: Eixo Educação e Comunicação do Irpaa
Fotos: Eixo Educação e Comunicação / Equipe Irpaa