Frases como “as mulheres agora não ficam mais caladas como antigamente” e “ajudou não só as mulheres, mas a nossa caminhada (comunitária, coletiva)” ilustram a potência dos diversos depoimentos partilhados ao longo do Seminário de encerramento do Projeto “Mulheres Rurais pela Justiça Climática”. O evento aconteceu nesta terça-feira (18) e reuniu cerca de 100 mulheres de comunidades que participaram de formações nos municípios de Curaçá, Juazeiro e Sento Sé.
As ações do projeto começaram em fevereiro deste ano e realizou 9 encontros formativos em cada município. Foram discutidos temas como: autocuidado, violência contra a mulher, racismo ambiental, justiça climática e comunicação. Nesse sentido, o foco das ações teve como objetivo contribuir para o fortalecimento do protagonismo feminino diante dos impactos da emergência climática. E esse tema perpassa o dia a dia das comunidades tradicionais que vêm sendo impactadas diretamente por grandes empreendimentos.
“A gente vem vivendo esse momento de pressão todo dia, é mineração, placas solares, energia eólica (…) principalmente na nossa comunidade, a gente já não vê mais um espaço que não esteja marcado pela mineração”, partilhou, preocupada, Margarida Ladislau, uma das lideranças comunitária de Andorinhas, em Sento Sé.
Margarida enfatizou ainda que as oficinas contribuíram para fortalecer essa luta em defesa do Território:
“Então, essas discussões sobre a justiça climática, a gente debateu vários assuntos e, dentro da nossa realidade, isso nos ajudou. Ajudou a gente a entender um pouco mais daquilo que a gente faz; a gente não dá nome, às vezes, às coisas que a gente faz, mas a gente continua fazendo tudo que é necessário para que a gente possa continuar de pé. A experiência foi boa”.
Durante um dos momentos de avaliação, a agricultora e liderança na comunidade Tradicional Fundo de Pasto Lagoa do Meio, em Juazeiro, Ana Lúcia Silva, pontuou a importância de ampliar o debate desses temas tão relevantes, principalmente da violência de gênero e do empoderamento econômico das mulheres rurais. Ela também destacou a necessidade de seguir dando atenção às mulheres que estão em comunidades rurais e que, muitas vezes, não têm o mesmo acesso às oportunidades que as da cidade têm.
“A gente sente mais falta desse olhar, desse investimento. A gente precisa ter pessoas, entidades e, porque não, políticos e políticas que tenham essa visão de que as mulheres que estão distantes da cidade precisam desses espaços de discussões, de formações; para que a gente se torne, cada dia mais, mulheres fortes, lideranças e diversas outras atuações. E que a gente se encoraje umas nas outras”.
Ainda durante a mesa de abertura, que contou com a participação de representantes da Rede Mulher do Território de Identidade Sertão do São Francisco (TISSF) e da Secretaria de Mulher e Juventude de Juazeiro, a coordenadora geral do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa), Nívea Rocha, enfatizou a força coletiva das mulheres.
“O conhecimento, o processo formativo, ele é emancipatório! (…) Hoje a gente celebra os nossos povos, as nossas guardiãs, (…) nós estamos cumprindo a missão de justiça climática, fazendo aquilo que os grandes não querem: que a gente resista, que a gente faça. E o projeto Justiça Climática vai nessa contramão: nós podemos, nós queremos, nós fazemos; o território é nosso, o território é das comunidades, e a saída é coletiva!”.
A coordenadora do projeto, Lorena Simas, destacou no seminário o quanto outras ações do Irpaa, principalmente de Assessoria Técnica e Extensão Rural (ATER), junto às mulheres rurais foram potencializadas também com as atividades desenvolvidas. Na avaliação de Lorena, isso evidencia que “é importante, cada vez mais, lutar por políticas públicas que falem sobre a gente”.
“As ações do projeto possibilitaram, para além da formação sobre temáticas urgentes, a união de mulheres quilombolas, indígenas e de Fundo de Pasto que se identificaram nas lutas pela garantia do direito, e construíram laços afetivos entre elas, um aspecto pouco abordado, mas fundamental para a manutenção do bem viver das mulheres”, complementa Lorena.
O seminário também contou com uma programação formativa, dedicada à escuta das mulheres e com discussões sobre saúde e defesa da terra. As falas reforçaram, por exemplo, o poder do autocuidado, ainda mais através das coisas simples do dia a dia e que são terapêuticas, como reservar tempo para descansar, para prosear com as comadres, tomar um chá e encontrar afeto e encorajamento em outras mulheres. Além da importância de seguir defendendo o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) e participar ativamente das decisões políticas, com representantes que, de fato, têm um olhar para as reais necessidades das mulheres.
Para encerrar um evento tão representativo do ponto de vista da força coletiva feminina e de tudo o que o Projeto representou, houve uma mística à beira do Velho Chico, com oferta daquilo que as mulheres querem que sejam “lavados”, que se renovem e fortaleçam. O momento foi marcado por lideranças indígenas do Povo Atikum de Oliveira, de Sento Sé, entoando cantos tradicionais.
O Projeto “Mulheres rurais pela Justiça climática” foi realizado pelo Irpaa, em parceria com a Rede Mulher do TISSF, com apoio da ONU Mulheres. Neste seminário, as Prefeituras dos municípios de Curaçá, Juazeiro e Sento Sé contribuíram com o transporte das participantes.
Texto e fotos: Eixo Educação e Comunicação do Irpaa