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“Umbu, goiaba, acerola, manga, caju e maracujá não se perdem mais no quintal das mulheres da nossa comunidade. Tudo agora é beneficiado”, diz Jandaraina Santos, com um sorriso no rosto. Ela é presidenta da Associação Comunitária e Agropastoril das Comunidades Tradicionais Quilombolas e Fundo de Pasto de Patos I e II (ACOATRAP), no município de Campo Formoso, na Bahia, e está vendo sua vida e a de outras mulheres mudarem a partir da organização social e do empoderamento feminino.
Com as ações iniciadas na comunidade, a partir do Projeto Agenda 2030 no Semiárido Baiano, foi possível discutir com as agricultoras e os agricultores a importância da atualização e regulamentação documental da associação para viabilizar o acesso a editais para financiamento de ações e melhorias de infraestrutura.
A partir dessa sensibilização, a diretoria da ACOATRAP buscou normalizar a situação da associação, permitindo que a comunidade concorresse ao edital do Fundo Casa Socioambiental, que visa promover a conservação e a sustentabilidade ambiental, a democracia, o respeito aos direitos socioambientais e a justiça social.
A elaboração do projeto contou com o apoio do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa) e da Secretaria de Igualdade Racial do município de Campo Formoso. Com a aprovação, a associação teve acesso a um aporte de investimento no valor de R$ 100 mil para a implantação de uma unidade de beneficiamento de frutas da Caatinga.
Com o orçamento, a comunidade pôde restaurar uma estrutura física que estava abandonada e, ainda adquirir equipamentos essenciais para o trabalho com frutas da Caatinga, como: despolpadeira industrial, mesa inox, lava bota, freezers, ar-condicionado e balança, além de roupas e equipamentos de proteção individual (EPIs) necessários para o trabalho na unidade. “Construímos o Sabor Quilombola com foco no beneficiamento de frutas que antigamente eram perdidas nos quintais. Hoje elas têm um direcionamento. A gente faz polpa de fruta”, conta Jandaraina.
Apesar dos avanços, o processo de consolidação da unidade de beneficiamento traz consigo desafios, como a sustentabilidade do projeto a longo prazo que depende não apenas dos equipamentos, mas da capacidade de autogestão do grupo e da manutenção das normas sanitárias. A transição de uma produção doméstica para uma unidade de beneficiamento exige uma adaptação constante às exigências do mercado e à burocracia estatal, o que requer formação contínua em gestão financeira e segurança do trabalho.
A integrante da unidade, Diana Santos, destaca o impacto social: “A unidade trouxe para a gente um meio de renda, de empoderamento, um motivo de estarmos juntas, e faz a gente esquecer problemas nas nossas vidas. Está sendo, e creio que vai ser para muitas de nós, um local de acolhimento”.
Ao visitar a unidade, é perceptível o entrosamento e alegria entre as mulheres. O grupo Sabor Quilombola é composto por 13 mulheres e se tornou um espaço de união, onde “a gente se reúne, trabalha e brinca”, ressalta Lucinete de Souza.
Diana chama a atenção para outro fator de destaque referente a qualidade das polpas produzidas. “A gente utiliza produtos naturais, frutas sem veneno, sem nenhum tipo de químico. Chega a ser uma polpa, totalmente natural”. Aspecto importante quando falamos sobre segurança alimentar e a qualidade dos alimentos que ingerimos.
Comercialização das polpas
Atualmente, a produção é comercializada entre as famílias locais e na feira semanal da comunidade vizinha, Lage dos Negros. Contudo, o grande objetivo é o mercado institucional. O acesso do grupo ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) é considerado estratégico e fundamental. Por meio desse programa, as mulheres garantem uma demanda fixa e previsível, permitindo que a produção quilombola chegue às mesas das escolas municipais.
Mais do que fortalecer a economia da associação, essas mulheres cumprem um papel social vital que é oferecer alimentos saudáveis, sem agrotóxicos e com identidade cultural para as crianças da região, combatendo a insegurança alimentar.
O desejo de Jandaraina é que, futuramente, o Sabor Quilombola comercialize as polpas para todo o município de Campo Formoso via PNAE. O coordenador do projeto Agenda 2030, Paulo César Santos, explica que o grupo está em formação para compreender esses processos. “Estamos discutindo sobre comercialização, precificação e organização visual do produto, trabalhando a parte complementar deste fortalecimento social e do protagonismo feminino local”.
Ao observar os avanços, Raira de Souza, integrante da associação, resume o significado do apoio recebido: “É o reconhecimento da força do nosso território e da organização coletiva. Conseguimos fortalecer a autonomia das famílias, gerar renda a partir do que já produzimos e valorizar os saberes tradicionais. A associação tem se fortalecido com mais participação e união”.
A ACOATRAP é composta por 33 sócias e sócios ativos. Como forma de manter a sustentabilidade da associação, o grupo de mulheres da unidade de beneficiamento estipulou que 10% do valor das vendas será destinado ao caixa comum da comunidade. Uma ação que reflete a importância da coletividade e do fortalecimento social, cultural e econômico do território quilombola.
O projeto “Agenda 2030 no Semiárido Baiano” é uma iniciativa do MOC e IRPAA, com apoio da Horizont3000, Comissão Europeia, Sei So Frei Graz, DKA e Agência Austríaca de Desenvolvimento (ADA).
Texto e Fotos: Eixo Educação e Comunicação do Irpaa